Tempo, Vida. Relógio. À memória dos amigos que já perdi. Aos que espero não perder. Aos que acreditam na solidariedade. NÃO SEI POR ONDE VOU ... SEI QUE NÃO VOU POR AÍ

16
Nov 08

O horizonte imaginário do Luís Filipe era o da sua própria casa, das pingas de chuva que caiam de telhas não conservadas e que nem ousava olhar, temendo que o ruído constante da sua incessante queda pudesse danificar duradouramente aquele aconchego... a esperança de que o perigo que o espreitava fosse mera questão imaginária...

 

Agarrava-se num apertado abraço com o travesseiro e juntava as pernas cruzando-as com as de sua irmã, assim ambos silenciosamente afastando o temor que o frio pudesse congelar seus corpos de crianças.

 

Cada dia vivido era comentado com as demais crianças que, bem ao lado e com sentimentos análogos, deixavam soltar lamentos e medos que se tornavam audíveis... 

 

Ultrapassada a noite, logo tudo era esquecido e a atenção centrava-se na busca de umas meias já rotas, transformando-as em pequenas bolas e logo se chamava os demais.

 

- Tenho uma bola, vamos jogar e umas vezes atiravam a bola uns aos outros, dizendo «lá vai uma bola carregadinha de...» que o destinatário teria de segurar em simultâneo com a afirmação de um nome por ordem alfabética e sobre um tema previamente combinado. Nomes de animais, pessoas, coisas, tudo servia... E quem falhasse, logo começava a receber a letra de B... «de burro» e, quando esgotasse as letras era eliminado.

 

Quando não existia a bola feita de meia, sempre haveria uma casca de laranja adaptada ao mesmo fim.

 

Assim se vivia num Mundo reduzido e redutor em que os sujeitos conhecidos e intervenientes eram apenas os membros da família e os vizinhos mais próximos, ainda que progressivamente, o seu número aumentasse, e com ele o início de desavenças e lutas, a distinção entre amigos e os outros vizinhos.

 

Com o início da idade escolar, deslocavam-se sempre a pé, quase sempre sozinhos, outras em grupo de dois ou três, sendo as escolas devidamente separadas entre «meninas» e «meninos», no caso implantando no recreio uma divisória composta por ramificações que sempre deixavam ver «algo» e despertavam a curiosidade de um olhar.

 

Os rapazes, nos intervalos, dedicavam mais a sua atenção, como que por natural intuição, a um joguinho de futebol: nas ruas, sempre atentos à vinda da polícia, era quase sempre uma bola de plástico que algum deles arranjara; na escola, proibidas tais bolas, arranjavam uma pedra que servia de bola e faziam partidas de futebol de recreio cujas balizas eram dois bancos  em pedra colocadas nas extremidades do recreio. Já devidamente organizados através da nomeação pela sua simpatia pelos Clubes de cuja grandeza ouviam falar - outro critério era o de cada «capitão» ir escolhendo, na sua vez, um elemento para a sua equipa, concordando que se alcançava  maior equilíbrio competitivo - e, assim organizados, disputavam empenhadamente o seu joguinho que era a parte mais interessante do dia escolar.

 

O resultado desses jogos era variável, mas em comum, todos levavam os seus únicos sapatos suficientemente estragados para causar o desespero de suas mães.

 

Sucedeu que um remate de Luís Filipe foi desviado e partiu o vidro da porta de entrada do recreio. Recebeu 8 reguadas em cada mão - réguas pesadas e grossas - e suas mãos ficaram inchadas até ao infinito, Jurou nunca mais entrar na escola, mas sua mãe logo lhe garantiu que pobre, sem estudar, mais pobre seria e, por amor maternal, jurou que lhe daria provas de estudo.

 

Entretando, corriam os dias e as crianças começavam a trocar informações sobre outras modalidades, pois que uma equipa de ciclismo lisboeta, sempre que se deslocava, tomava as suas refeições no restaurante do pai de um deles.  Daí, logo arranjaram uns arames em «forma de guiador» que cobriam com laços da cor do seu Clube favorito e, na falta de bicicletas, corriam eles mesmos, ruas fora em percursos que definiam. Era um atletismo agarrado a um «elemento identicador de ciclismo».

 

Cresciam assim e quase sempre, apenas vinham recolher apoio familiar quando machucados, pois que as brincadeiras por vezes implicavam perigos.

 

O próprio Luis Filipe partira uma perna ao correr sem notar um arame em que as mães estendiam a roupa - normalmente mais elevada - e  pela primeira vez entrou num hospital.

 

E, chegados ao Natal, oravam protestando que sempre se portaram bem todo o ano e queriam pedir um presente, mas nem ousavam dizer o quê, por expressa advertência dos pais. Aquele que o Pai Natal puder trazer...E os dias iam passando entre pedaços de comida que se podia alcançar, as brincadeiras que tudo permitiam esquecer ou quase...

 

Um dia, a Guida veio-se despedir que iria para bem longe. Seu pai, sem qualquer emprego, conseguira «ir a salto» , com a de ajuda de contrabandistas, até outro País chamado França  e lá arranjara trabalho e chamara a família. Família, sabia-se o que era, limitando-a a pais e fihos, algumas vezes os avós. Trabalho imaginava-se que seria esse desconhecido local para onde os pais iam, ainda madrugada, para alcançar algo para o sustento da casa. Já desemprego era vocábulo novo. Mais se sabia de vários pais que tinham ido até Lisboa - e demoraram um dia a lá chegar -, na tentativa infrutífera de obter autorização para se deslocar para uma das colónias portuguesas, a mais falada, que não a única, nesses casos, era Angola.

 

Tal como a moeda era diferente - de nome similar mas de valor apenas convertível -, também a deslocação dentro de um espaço territorial dito nacional era coisa que, dizia-se balbuciando quase em segredo, desabafo para ninguém ouvir, apenas era autorizada a alguns.

 

Mas necessidade de ir para longe «buscar a sorte noutras paragens» era novidade... coisa nova... De que ninguém falara e contra o que tinham ensinado na escola. Que Portugal era enorme... com uma História de grande sucesso e com territórios espalhados pelo Mundo.

 

Porquê então emigrar para outro País? Outra duvida e nova curiosidade se suscitou... Países? ... o que eram esses outros Países que tinham empregos para oferecer a quem aqui não alcançava o sustento? Ouviram falar de Angola, Moçambique, outras que nem se lembravam, França? Onde é isso?

 

- Pois seu ignorante, retorquiu Luis Carlos. Não sabes que é na Europa?

Que se fala lá a língua francesa. Pois olha, logo que entrares no liceu terás de a estudar...E olha que os que foram para lá sem saber uma palavra, dentro de algum tempo dominarão a língua. E com o câmbio mandarão muito dinheiro para cá; e desatou a enumerar uma série de diferenças que iriam surgir.

 

- Hahhh, obrigado, ripostou Luís Filipe, logo acrescentado: - Mas temos de pedir ao Professor para nos ensinar eesa matéria omitida em Geografia...

- Tudo bem, mas muita calminha se falares em colónias. Melhor, não falas disso. Fala da Europa.

 

No dia seguinte, passaram a saber que desde muitos anos atrás, os portugueses se deslocavam também para outros paradeiros, por vezes bem distantes, como era o caso do Brasil, uma ex-colónia independente, em que desde o séc. XIX desenvolveram, entre outras, a indústria de panificaçao.

 

publicado por Manuel Luís às 02:45

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